segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Ariel

E então, de repente, deparo-me com a mais linda donzela de minha vil ilusão errante. Vestia flamejante cabelo rubro, olhos verde-água e um magnífico, bronzeado celeste corpo, coberto apenas por sutiã e cauda. Olhar e pausa. E em cada canto que olhava, nem uma apenas testemunha acompanhava seus gestos chamando ninguém além de mim. Era inacreditável. Caso não fosse sonho, juraria, tão medonho, que fosse realidade.

Nadamos e brincamos juntos. Sozinhos. Eu, ela e os golfinhos. E enquanto a tarde caía e o sol se punha no horizonte, aos montes se amontoavam milhões de micro-peixes a perturbar nosso momento. Sento-me e lhe sento em meu colo. Colo meus braços em sua cintura e pinto a costura de suas orelhas com água e cuspe.

Mordo as esquinas de seu pescoço, te aperto os seios, te excito ao pé do ouvido, como suspiro, seguido de beijo-calafrio. Abro lentamente o zíper de suas nadadeiras, mas suas mãos hesitantes indicam ainda ser cedo a derradeira – ou talvez que não fosse ali o lugar ideal. Pega meu braço e sai em disparada. Diz querer me mostrar os lugares mais belos da costa mineira, a começar pela praia do sonhador.

Em seu sotaque paulista, quase todas as palavras viravam uma linda melodia. Mas “sonhador” não era uma delas. Sonhadorrrrr. Solto uma risada tão alta que fez inflar até o baiacu que ali passava. Ela sacaneia de volta, zoando o meu carioquês cheio de xis. E assim, zombeteiramente, nadamos até nosso primeiro destino.

Até que era bonita a tal praia do sonhadorrrr, mas pra quem costuma curtir a Restinga da Marambaia e Grumari não tinha nada de mais. Ficamos um pouco, andamos de banana boat e fomos embora. Já estávamos com fome quando ela sugeriu o Siri Cascudo.

Sanduíche com o Bob Esponja.

Topei na hora. Nunca pensei que fosse conhecer tal bichinho amarelo de voz esganiçada e calças quadradas. Não via a hora – literalmente. Meu relógio não aguentara a pressão e parara de funcionar desde antes da praia, lá pelas 16h20. Enfim, chegamos e fomos muito bem recebidos pelo Bob. Que aprazível sujeito apresentou a ponta e disse que havia ganhado um trailer no Lata Velha e que estava economizando grana para fazer sua própria lanchonete. Disse-lhe que deveria chamar Bob’s, mas ele achou o nome idiota. Perguntei sobre o Patrick e ele disse estar numa clínica de reabilitação, mas não quis entrar em detalhes. Deve ter sido cocaína. Quase sempre é.

O encontro foi bacana, mas o sanduíche deixou a desejar. A carne era muito salgada e o pão ensopado. O que salvou foi a sobremesa: sorvete de campari com calda de caramelo. Fiquei bêbado e com vontade de trepar. Perguntei a ela se havia um lugar. E então conheci o matadouro.

Uma caverna subaquática a uns 900 metros dali. A chave da porta secreta era uma pedra no meio do caminho que quase me fez tropeçar. Mantive-me ereto e me pus à vontade em seu aposento. Não havia muita coisa além dos badulaques de qualquer sereia: espelho, pente, gaita, blush... e uma cama king size com direito a espelho no teto e pole dance. Aparentemente a minha sereia era safadinha. Transamos muito, durante muitas horas, até esgotarmos nossas forças.

Após um breve cochilo, ela me acorda com o sorriso cheio e o estômago vazio. Diz que quer comer um linguado. Eu acho graça e falo que comerei uma lagosta. Rimos e rumamos ao restaurante, onde, pra minha surpresa, ela realmente pede o peixe. Como a lagosta era muito cara, acabo pedindo apenas dois Temakis. Era um restaurante delicioso e ficamos conversando por horas sobre política, filosofia, teologia. Biologia. Muita química... saímos apenas por causa da fumaça. É incrível como as pessoas fumam e falam fumando no fundo do mar.

Que encontro maravilhoso, que teimosia em persistir maravilhoso por tanto tempo. Começava a me preocupar, achando que nunca mais iria embora. E se fosse? Como faria para encontrá-la depois? Não existe facebook no fundo do mar. Era a pessoa mais incrível que eu jamais conhecera. Dava vontade de abandonar a vida terrestre e morar pra sempre em sua saleta, com seus pente, espelho, gaita e blush. Completamente absorto por toda aquela fantasia, decido ficar mais um dia no mar. Deixaria para depois a decisão sobre o meu futuro. Deixaria por estar o estado que fosse.

Na manhã seguinte uma carta em seu criado mudo, embaixo da gaita, chama a atenção. Ela tem o meu nome impresso em tinta vermelha e, no verso do envelope, uma única marca: uma minhoca presa a um anzol e um pedaço de linha. Que seria isso, eu indago. E, meio sem jeito, sem querer acordar minha futura ex-namorada, adormecida em meu colo, Alcanço a correspondência.

O remetente chamava-se Tritão e aparentemente era meu sogro. Solicitava um encontro para o desjejum. Queria acertar os detalhes do casamento. Não sei aonde eu estava com as cabeças nessa hora, mas lembro ter ficado feliz com a carta. Decisões importantes nunca foram meu forte e o fato de uma decisão dessa magnitude ter sido tomada por mim me deixava muito feliz e aliviado. Iria me casar com uma sereia. Mas antes precisaria conhecer seus pais e eu precisava de um banho. Sentia meu corpo salgado e melado de suor. O mar com certeza fazia muito mal à minha pele.

Quando a minha submersa princesa acorda, fica sem graça e diz que não existem chuveiros embaixo d’água. Mas que sua falecida avó tinha um navio e que eu poderia tomar banho lá. Era um cargueiro europeu, com bandeira espanhola, cheio de contêineres contendo cantis e carabinas para as tropas brasileiras. O comandante era um sujeito engraçado, chamado Saulo, que estava sempre chapado pois consumia boa parte do seu contrabando de drogas que levava do Panamá para o Pará.

Tomo um banho que ela toma comigo, transamos novamente e morgamos na cabine. Após o descanso, colocamos uma roupa e saímos. Como estava sem camisas ou calças limpas, acabo vestindo as vestes de seu último vilão, namoro passageiro daqueles que deixam corpos no chão.

Na saída da cabine topamos com ninguém mais, ninguém menos, que Pirlo e Ronaldo ‘fenômeno’. Estavam conversando sobre opções de ações futuras. Quem iria imaginar. Acabam parando para falar conosco. Aparentemente Pirlo e Ariel são velhos amigos.

Devoramos sanduíches e então somos surpreendidos por uma conhecida em comum que fica muito feliz ao nos ver juntos, ali no deck. Fumava um beque apreciando a vista e acompanhando o solene cair do sol costurado por um zíper de gaivotas voadoras que em V planavam. Ofereceu-nos, graças a Jah e, agradecidos, entorpecemo-nos.

Despedimo-nos e mergulhamos. Iria conhecer o sogro. Não queria, imaginava que não agradaria, ainda mais de olhos vermelhos. Mas a salina solução do fundo do mar hidratou minhas dilatadas pupilas cor de fogo. Nadamos, nadamos, nadamos, até que chegamos.

Quase não acreditei quando ao longe avistei uma enorme festa para a minha recepção. Todos reunidos saudando a nossa chegada, empolgados com o casório. Decoração top, guloseimas, dançarinas de hula bailando em uníssono... muitas velas e cigarros acesos. É impressionante como as pessoas fumam debaixo d’água. Finalmente sou apresentado ao sogrão, destemido rei dos mares.

Não se parecia nem um pouco com a personificação de Walt Disney. Muito pelo contrário. Era careca, gordo, baixinho... mais parecia uma mistura de Buda com Mestre dos Magos. Muito simpático, me apresentou seus amigos e familiares, entregou-me uma bacia de coco com uma bebida esquisita dentro, e ordenou que as bailarinas encenassem um número que haviam feito especialmente para a minha visita. Ofereceu-me um baseado também. Aparentemente todo mundo fuma nos meus sonhos. Mas dessa vez não aceitei. Não queria que ele soubesse quem eu realmente era. Meu personagem bom moço era mais interessante e apropriado para o momento.


Rimos, brincamos, curtimos e ao final da festa rumamos de volta para nossa cabine no navio da vovó. Estávamos tão cheios de tesão que transamos até não sabermos mais que dia era. O hoje era qualquer dia, o ontem não existia e o amanhã pouco importava. E como roncava a minha sereia. Quem vê não diz, mas eu vi, ouvi e mal acreditei, mas até que era bonito o seu ronronar. Esses encantos de sereia, que nem canto de baleia, tudo que era som era lindo também. Adormeci e então acordei. Molhado.

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