segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Aos meus vícios com carinho

Vício é perda de escolha.
É sabor e pesar em perfeita harmonia
É viver dia após dia
Esperando a dose diária que o encolha
A uma fração do que costumava ser.

Vício é perda de vida.
É o bom que antecipa o mal que acarreta
Como um tridente que coça, espeta
E corrói a alma de forma atrevida
Até desaparecer

Vício é igual a dependência.
É quando precisamos de maneira tão forte
De algo ou de alguém que, em sua essência,
Apesar de definir a nossa vida ou morte,
Não é tão importante.

Vício é um valor mal atribuído
A um ser ou substância.
É um desdém da nossa própria arrogância
Em julgar por vencido
O poder de um gigante.

Todo vício é uma luta
Do que se quer contra o que se deve.
De um lado o desejo que se atreve.
Do outro a nossa força bruta
Que de vontade não tem nada.

Porque todo vício é bom.
Ele não viciaria se fosse ruim.
É tão forte a boca querer dizer sim
Que o corpo não consegue emitir outro som
E segue em seu ciclo de forma inalterada.

Não é todo vício que mata
Nem todo viciado morre no final.
Mas é certo que todo vício é prejudicial
E antecede a dependência que maltrata
E leva à loucura.

Hoje, louco e abatido, já não luto mais.
Vivo com meu vício lado a lado
E não me afasto. Sou completamente apaixonado.
Quando chegarem meus momentos finais
Estarei resignado, sem armadura

A esperar pelo último beijo.
A dar meu último suspiro, meu último trago.
Pois o bom viciado rejeita a cura e o afago.

Ele pinta com sangue o azulejo
E assume a responsabilidade de ser viciado,
eximindo de culpa o vício amado.

Mentira! Todo viciado traz consigo
Uma fagulha de esperança
De pelo vício ser perdoado.

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