Lembro-me ainda hoje, como se
tivesse sido ontem, da primeira vez que me notou. Seus olhos claros, ora
transparentes ora tão misteriosos, pareciam-me enxergar a alma, tão sem
mistérios, tão transparente a esses mesmos olhos. Mal pontuei a poesia que
acabara de ler e fui abruptamente interrompido por seus lindos e delicados
lábios, a solicitar em desafio uma continuação. Tomado por uma miscigenação
indescritível de sentimentos, continuei.
O frio na barriga e a voz trêmula
pareciam em muito aumentar a dramaticidade do texto, mas o sorriso
desconcertado e a timidez escancarada adicionavam um tempero inesperado,
involuntário e descontraído à leitura. Ao final, ela se aproximou e sua voz
rouca e suave novamente ronronou elogios doces, carregados de sinceridade e uma
admiração recém adquirida.
Talvez tenham sidos os elogios
mais sinceros que já recebi – independentemente se o foram ou não – pois não
vinham de sua boca deliciosa, mas de seu penetrante olhar que me perfurava o
peito, ainda que apontado para cima. Começamos a conversar e então foi sua vez
de me acariciar ao pé do ouvido com versos que, não apenas me enfeitiçaram,
como credenciaram os chamegos anteriormente respaldados apenas por sua beleza
exótica e indiscutível.
E era, de fato, indiscutível a
sua beleza: magra, alta, com um lindo sorriso e portadora de um corpo
escultural, realçado por longos e cacheados cabelos negros – e não esqueçamos
os incríveis olhos claros. Não somente os atributos físicos, era gentil,
simpática, delicada, inteligente. Tinha os modos de uma dama e a sensualidade
vulcânica de uma odalisca. Sejamos francos: era muito gostosa, em todos os
sentidos que a sinestesia linguística permitir.
Não queria outra coisa naquele
momento senão seu gosto em meus lábios, seu cheiro em meu travesseiro, seu
corpo no meu, seus sons no meu ouvido e a simples visão do que parecia miragem.
Em contrapartida, poderia oferecer-lhe meu corpo roçando contra o dela, meus
gemidos de prazer e minha boca entre suas pernas. Seus olhos poderiam estar
fechados e seu olfato perderia-se entre velas aromatizadas, incensos e suor.
Se há um Deus nesse mundo, fora
Ele muito gentil com essa menina e um tanto desumano comigo, colocando em meu
caminho pérolas e me fazendo porco. Por que, Deus, em toda a perfeição e
complexidade de sua criação, inventaste a lésbica? Corrijo-me: se há um Deus
nesse mundo, esse Deus é ela. Eu sou mero São Pedro.
Pepê, vc saiu do Fb... queria te mostrar um texto que eu fiz. Não tenho seu email :(
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