terça-feira, 24 de setembro de 2013

O silêncio é a palavra que resolve se calar

Certa vez achei que a função da palavra era comunicar.
Mais que isso, cada palavra vinha com a missão de se fazer apaixonar.
Cada verbo tinha um destino, pelo menos na cabeça do menino,
Que era a menina a quem queria conquistar.
Todas as frases eram ouvidas e a resposta era o abraço de dois argumentos.
Ok. Havia momentos e momentos. Mas em meio às pausas vinham rajadas.
Turbilhões de ideias embaralhadas se emaranhavam na mente afoita dos jovens
Enquanto bradavam o desejo de se juntar e criar estórias de amor.
O “amor” nessa época era um termo onipresente.

Pouco tempo depois a palavra ganhou uma nova patente.
E eram tão veementes os pedidos que o perdão ganhou sentido.
Nenhum erro passava batido e as desculpas eram logo percebidas,
Sempre precedidas de longos debates acerca das gafes cometidas.
Nossa! Quantas palavras foram ditas nessa época...
A luz das velas na mesa mal era sentida tal era a verborragia dos encontros.
O vinho dava passagem ao beijo, que era interrompido pelo sorriso,
Que dava lugar às declarações de amor.
Eram cheias de calor as interjeições daquelas noites.

Passado esse momento de euforia, achei que era o insulto a função que ela exercia.
Afinal, as línguas afiadas destilavam diariamente o descontentamento do casal.
E sem alforria ficavam engasgados os velhos elogios, reféns da raiva e da impaciência.
Não era demência o problema matinal, mas uma disputa acirrada pela última palavra.
Quem desferiria o golpe final? Quem traria no peito a marca tipografada?
Começou a ser muito comum a utilização dos provérbios. Nem todos sérios,
Mas sempre com a função de calar, sentenciar, satirizar, alfinetar.

Após algum tempo, tudo já posto em seu devido lugar,
A palavra tirou férias e pôs o silêncio pra comandar.
Era como se aquele casal tivesse regredido e voltado para o gestual.
O bom dia, a declaração de amor, o elogio, nada disso era mais natural.
A vida em tons acinzentados começava a se tornar normal
E todas as palavras daquela casa eram as impressas em jornal.

Tão insustentável ficou a relação
Que um dos dois decidiu terminar a união,
Levando consigo toda a narrativa dos dois.
Só muito tempo depois viria o recado para com palavras se desculpar:

“Eu te amo, sempre te amei e pra sempre vou te amar”.

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