quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Da portaria não vê-se o mar

Deita o marujo sob a luz do luar
Escondendo seus olhos das estrelas e do mar
Estende os braços, repousa as pernas
E deixa às velas o trabalho de navegar

É impossível não pensar nos erros cometidos
E nas sereias, com seus lindos vestidos
Que o enfeitiçaram com canções de toda sorte
Perdendo a razão, o norte e seus sentidos

Quantas escolhas erradas o levaram à costa
Quantas mudanças de rumo em resposta
Às intempéries do tempo e do trago
Reflete espantado que do barco ainda gosta

E como pudera ser diferente, na embarcação de sua vida
Conseguira morada, trabalho e comida
Onde se escondeu da perversidade humana
Que como uma chama fora tão atrevida

Acorda o marujo com o bom dia do sol
Prepara desanimado a isca e o anzol
E espanta-se em ver ao longe
Sobre um monte, um lindo farol

Seria merecedor de tão bela visão matinal?
Nunca vira antes um farol de sua nau
Poderia atracar, ser feliz, ter paz e calma
Poderia limpar sua alma do suor e do sal

Mas a chegada poderia muito bem ser o seu fim
A jornada do navegante errante não acabaria assim
Não deixaria ao acaso, mesmo que de passagem
O desfecho de uma viagem que não era de todo ruim

Queria ele ser o mestre de seu próprio destino
Manejar o leme e o manche com seu corpo franzino
Ver novas paisagens, respirar novos ares
E chegar nos lindos lugares que sonhara enquanto menino

Então o fez, manobrando seu barco como uma dança
Com jeito de cigano e inocência de criança
Conduziu seu barco para a próxima aventura
Levando consigo a ternura do farol como lembrança.

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